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terça-feira, 31 de agosto de 2010

AS DIETAS AFRICANAS






A cozinha dos negros se formou no Nordeste brasileiro mas que teve origem no Recôncavo Baiano.


E nessa região - do mar às portas do sertão - foi se formando uma cozinha, a "cozinha baiana" - também chamada de "comida de azeite", numa referência ao azeite-de-dendê, um de seus ingredientes básicos, o óleo extraído da polpa do fruto da palmácea Elaeis guineensis. (...) Existe uma vasta bibliografia botânica e histórica sobre essa palmeira de origem africana e sua introdução no Brasil, nos começos do século XVII - logo se aclimatando em todo o Nordeste do país. Foi o azeite dessa palmeira - da polpa, não da semente, que esta tem outros usos e outro nome - que deu a cor e o gosto às comidas afro-brasileiras e definiu, iconicamente, a participação africana no sistema alimentar brasileiro.


Podemos, então, falar em "cozinha de azeite" - ou "comida de azeite", ou "de dendê" - e entender que nos referimos a toda uma série de comidas, de uma segura origem 'africana', pelo elemento tipificador, identificador de suas origens. Certo não será apenas o dendê que define a comida afro-brasileira. Não apenas um ingrediente básico identifica a origem de uma comida num país pluriétnico como o Brasil, mas também as técnicas do preparo; as situações sociais, portanto, culturais, em que a comida é servida; a freqüência e outras circunstâncias indicadoras de sua proveniência; e a goma auxiliar dos condimentos, do uso prescritivo dos temperos, e, naturalmente, a nomenclatura dos ingredientes e dos pratos elaborados.


Outra constante icônica da "cozinha de azeite" são as pimentas, que têm provocado entre os especialistas acaloradas controvérsias quanto à sua origem botânica - americana ou africana. Se hoje não há mais dúvidas sobre a origem do dendezeiro, as pimentas usadas na comida de origem africana no Brasil são, indiscutivelmente, nativas notícias das Américas. (...) as variedades - e são muitas - de pimentas utilizadas na chamada 'cozinha baiana' e na cozinha brasileira em geral são, efetivamente, de origem americana, pré-colombiana e, na sua grande maioria, pertencem ao gênero Capsicum da família das solanáceas. Os índios brasileiros as empregavam largamente em suas comidas.


Mas foi com a codificação, por assim dizer, das cozinhas africanas no Brasil que o uso dessas pimentas se cristalizou em receitas e prescrições definitivas. O uso das pimentas dessa dupla influência - indígena e africana - se estendeu, já no século XVIII, para a mesa das classes dominantes num hábito gastronômico generalizado e marcante.


A participação da cozinha - ou das cozinhas - africanas no processo do sistema alimentar brasileiro apresenta um aspecto particular. Ela se vem fixando na dieta do povo desde o século XVIII. Por esse tempo, muitos dos pratos africanos já eram correntes na alimentação popular, vendidos nas ruas da cidade negra da Bahia, por "escravos-de-ganho".


Um cronista da época, Luís dos Santos Vilhena, que foi professor de grego na Bahia no fim do século XVIII, dali escreveu uma série de cartas a um amigo em Portugal, publicadas em livro, com o título ainda barroco de Recopilações de notícias soteropolitanas e brasílicas (1a edição: 1802). Dizia, então, Vilhena, na Carta Terceira:


"Não deixa de ser digno de reparo ver que das casas mais opulentas desta cidade, onde andam os contratos e negociações de maior porte, saem oito, dez e mais negros a vender pelas ruas, a pregão, as coisas mais insignificantes e vis: como sejam, mocotós, isto é mãos de vaca, carurus, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, isto é, papas de milho, acassás, acarajés, abarás, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão-de-ló de arroz, o mesmo de milho, roletes de cana, queimados, isto é, rebuçados a oito por um vintém e doces de infinitas qualidades, ótimos, muitos pelo seu aceio, para tomar por vomitórios; o que mais escandaliza é uma água suje feita com mel e certas misturas que chamam aluá que faz por vezes de limonada para os negros."


Essa por acaso longa citação mereceria uma análise demorada - que não posso sequer tentar aqui. Quero apenas ressaltar que nesse elenco de comidas vendidas nas ruas da Bahia, no fim do século XVIII, em meio de alimentos basicamente indígenas, da doçaria de origem portuguesa e de pratos já então 'brasileiros', está uma amostra considerável de pratos africanos, tipicamente africanos, como o acarajé, o acassá, o vatapá e o abará, que hoje, duzentos anos depois, continuam a ser vendidos nas ruas da Bahia e por outras cidades do Brasil.


Mas, por esse tempo - fins do século XVIII -, começava a se organizar, em comunidades estruturadas, na Bahia, o sistema religioso dos escravos de origem fon e iorubá, chamados na Bahia de jejes e nagôs - dos últimos a ser introduzidos no país pelo tráfico escravista. Há referências documentais de grupos religiosos anteriores, formados de escravos de origem banto, tanto na Bahia como nas áreas de mineração das Minas Gerais.


Mas, na Bahia, no fim do século XVIII esse processo de organização das comunidades religiosas se inicia para além das devoções individuais e domésticas dos escravos e libertos. (...) Esses grupos se reuniam, e assim se estruturavam, no próprio centro urbano da cidade, nas lojas dos grandes sobrados em que moravam seus senhores e nas pequenas casas da vizinhança compacta, moradia na maior parte, de africanos libertos e brasileiros negros.


Nesse tempo foram recriadas muitas das comidas cotidianas dos homens e dos santos. Pois que os santos comem o que os homens comem. E as comidas mais elaboradas das festas, das celebrações votivas. Esse foi o tempo do cozinheiro e da cozinheira escravos, que reproduziam o cardápio basicamente português, mas já substituindo, trocando ingredientes, colorindo os ensopados com o vermelho do dendê, inventando variedades de moquecas; usando o inhame, a banana cozida ou frita no azeite; recriando o caruru, o vatapá. Pratos novos com um sabor antigo - que era o deles - e um gosto novo - que eles aprendiam.


Elaboradas, requintadas na forma, no ordenamento do preparo, ou na simplicidade aparente de um despojamento prescrito pelo mito. Vez que atrás de cada oferenda alimentar está o mito que a prescreve pelas práticas divinatórias. Como ilustração, uma comida chamada ebô, que é um prato específico oferecido ao orixá - nagô Oxalá e à sua grande família de santos 'de branco', isto é, que usam obrigatoriamente roupas brancas, por isso chamados, no candomblé, de 'orixá fun-fun', de fun-fun (branco, em iorubá-nagô). Esse prato é apenas e tão somente feito de milho branco, descorticado, cozido sem sal! Oferecido a Oxalá e, em dias de festas, aos membros da comunidade e aos visitantes episódicos, servido sobre uma folha e comido, naturalmente, sem talher. Branco o ebô, e sem sal nem azeite-de-dendê, porque os mitos de Oxalá e de sua corte remetem à interdição desses temperos.


Fora do candomblé, essa cozinha marcadamente africana - tanto nos elementos constitutivos como nas técnicas do preparo e na terminologia correspondente - está presente não só na comida cotidiana do povo - por alguns de seus pratos mais 'ligeiros', ou 'secos' -, mas também nas celebrações e nas festas populares, na hospitalidade ocasional a visitantes 'de fora', nos almoços e jantares comemorativos e nos restaurantes turísticos da comida chamada curiosamente de "típica".


Quero, ainda, acrescentar que essa cozinha tão marcadamente africana - que a ideologia de um sistema religioso ajudou a criar e de certa maneira ajuda a preservar - se encontra atualmente espalhada por todo o país. Do Pará, da Amazônia, de Porto Alegre, nos chegam, com freqüência, publicações que documentam a crescente expansão do candomblé e, por conseqüência, da comida que não tenho dúvidas em chamar, ainda, de afro-brasileira.


Certo nem todas as comidas sacrificiais - e elas são mais de 80 pratos! - se acomodaram à comida cotidiana - ou episódica do povo. Mas o processo está aí. Os santos africanos comiam a comida dos homens. Hoje, os homens comem a comida estilizada dos santos.


VIAGEM GASTRONÔMICA ATRAVÉS DO BRASIL
CALOCA FERNANDES
Texto: Vivaldo da Costa Lima

COMIDA DE SANTO



Explorando o assunto Comida de Santo, pode-se encontrar na literatura alguns textos. Fazendo-se agora um resumo e algumas colocações. Nina Rodrigues, em seus estudos, ao abordar à arte da culinária africana, achou difícil precisar, devido ao estado atual dos costumes, à quais grupos pertenceriam determinadas comidas. Já Manuel Querino assinalava que a contribuição dos grupos bantos, angolanos e jejes eram maiores que as dos nagôs, contrariando a tese dos que insistiam na sua predominância.


Nos terreiros, esta cozinha, marcada por uma série de preceitos e interdições, vai aparecer relacionada diretamente aos deuses através das chamadas comidas do santo. Assim, cada um deles irá receber em dias especiais (ou não) pratos de sua preferência. Não se trata, porém só de comer e sim o que se come, o que não se come, quando se come, com quem, participam de um todo integrado que diz respeito a códigos imprescindíveis dentro da culinária dos deuses. E mais ainda, esta comida dentro da dinâmica dos terreiros é um dos veículos de vital importância para a transmissão e distribuição de axé.
Seja essa comida reelaborada a partir de técnicas e maneiras predominantemente banto, jeje ou yorubá, esse negros modificaram as refeições do reino como já exposto. Outro fato que deve ser considerado é a falta de mantimentos num país desde o começo assolado pela fome. Da nova terra, o português ao lado das caças e muitos frutos, só pôde aproveitar a mandioca e o milho que eram alimentos básicos para o sustento e o qual era oferecido aos negros. Adotar os mantimentos da terra, ao lado de importar tantos outros como, por exemplo, o gengibre, arroz, inhame, banana, coco, dendê, foi à solução encontrada pelos portugueses para suprir a falta de alimentos. Cascudo (1970) diz que ao fim do séc XVIII os produtos americanos já estavam tão difundidos na África portuguesa que participavam das refeições nos negros, escravos ou livres.
Os ingredientes africanos vindos da áfrica, como o quiabo, o inhame, erva-doce, gengibre, gergelim, amendoim, melancia, dendê e outros foram entrando aos poucos no Brasil de acordo com as exigências do tráfico ou da população aqui estabelecida. Não é possível, no entanto, se pensar nesta cozinha e nem em uma outra somente a partir de tais elementos. Ela é mais do que um conjunto de matérias naturais que podem ser adaptados e substituídos. Esse próprio fato obedece a uma certa ordem inscrita nos mais remotos tempos, fazendo com que a comida não perca seu sentido nem se afaste da visão do mundo que ela representa. O que dá identidade à determinada comida não é a origem dos vários ingredientes combinados, mas a maneira como estes elementos são combinados. E estas maneiras obedecem a determinados ritos que lhe dão sentido e, como tais, apresentam-se como algo criativo. Assim, é completamente arbitrário buscar precisar datas para essa culinária, entendendo esta como algo parado, fechado, se o próprio tempo se incumbiu de dinamizá-la.
As condições de possibilidade para se pensar uma cozinha africana não podem ser pensadas em nível cronológico, assim como não podem prescindir desse tempo. Elas vão acontecendo, se dando, de acordo com o tipo de situação servil ou livre e o lugar em que vivia o africano, variando, desde o primeiro momento em que dividiu a cozinha com as africanas cozinheiras, até quando pôde, ante as novas condições suscitadas pelo processo histórico, negociar um tabuleiro.
O processo de criação das comidas africanas também se deve a importância dos jejuns e das festas regulados pelas igrejas ( outra questão complexa que não cabe abrir aqui). Os africanos tiveram também que adaptar às vezes sua alimentação, a hora e quantidade que se podia comer impostas pela igreja. Todavia, quando puderam providenciar seus próprios alimentos. é muito provável que tenham lançado mão do conhecimento acumulado e das várias experiências trazidas de suas terras, já somadas a tantas outras.
Tudo isso que foi colocado pelos autores não se trata de um retorno à África, mas fazer com que comida se faça africana, ou seja, remonte a histórias e passagens, visões de mundo associadas aos ancestrais, princípios universais ou antepassados, aos primórdios dos tempos quando estes fundaram a humanidade, constituíram as cidades e criaram os diferentes grupos. Visões de mundo juntadas a inúmeras outras experiências históricas constituídas no Novo Mundo. É este fazer que faz com que tal comida seja comida de santo.
A comida de santo diferencia-se, assim, daquela do dia a dia. Uma coisa é cozinhar um inhame e dividi-lo em pedaços e come-lo no café da manhã. Outra é preparar esse mesmo inhame para Oxalá, quando variam desde o tamanho, a forma das raízes, os procedimentos observados para sua feitura e por fim, as palavras ditas para encantar a comida. Fazer um feijão no azeite não é o mesmo que preparar um Omolocum. Neste nada pode se escapar, se escolhe bem os grãos, pois Oxun liga-se à fecundidade. Os deuses comem comida mais elaborada. Embora os ingredientes sejam os mesmos, mudam o tratamento que estes recebem. E a forma como estes são tratados expressa seu sentido através de um ritual onde nada é por acaso. Assim, Exu pode comer de tudo com já dizia um de seus mitos. Ogun pode receber feijoada, uma vez que as carnes gordas lhe pertencem. E Oxossi por se ligar a terra, recebe todos os frutos dados pelo Novo Mundo.


Gonzegan Carla de Tobosi


FONTE: Faces da Tradição Afro-Brasileira – CNPq
Santo Também Come - Raul Lody

ACAÇA





As definições mais elementares do acaçá (àkàsà)  é de uma pasta de milho branco ralado ou moído, envolvido, ainda quente, em folhas de bananeiras. A definição é correta, mas extremante superficial, pois o acaçá é de longe a comida mais importante do candomblé. Seu preparo é forma de utilização nos rituais e oferenda. Envolvem preceitos e regulamentos bem rígidos, que nunca podem deixar de ser observados.




Todos os orixás, de Exu a Oxalá, recebem acaçá. Todas as cerimônias, do ebó mais simples as sacrifícios de animais, levam acaçá. Em rituais de iniciação, de passagens fúnebres e tudo o mais que ocorra em uma casa de candomblé só acontece com a presença do acaçá. A vida e a morte no candomblé se processam à partir desta oferenda fundamental, sem a qual nenhum homem seria poupado dos dissabores e percalços do destino. Quando recorremos á história dos orixás, percebemos o grande mal que a humanidade todas as vezes que se afasta do poder divino, representada, nesse caso, pelo poderoso Orun, a morada de todas as divindades, e pelo supremo, senhor do Destino dos Homens. Olodumaré, também conhecido como Olorum (Zambi).


Só existe uma oferenda capaz de restituir o axé e desenvolver a paz e a prosperidade na Terra, ela é justamente o acaçá. Mas o que faz de uma comida aparentemente tão simples a maior das oferendas aos orixás?


Será que todos sabem o que realmente é um acaçá?


Façamos então uma classificação dos elementos que compõem o acaçá para chegarmos à derradeira conclusão. Primeiramente, é preciso esclarecer que a pasta branca à base de farinha de milho (que fica alguns dias de molho e depois passada pelo pilão ou moinho) chama-se na verdade eco (èko). Depois de coxear, uma porção da pasta ainda quente, é envolvida em um pedaço de folha de bananeira para enrijecer (na África é utilizada outra folha, chamada èpàpo), tornando-se, agora sim, um acaçá. (Hoje em dia nós temos a facilidade de encontrar o milho vermelho moído que é o fubá vermelho e o milho branco que é o fubá branco, mais existem sacerdotes que ainda utilizam o ritual de antigamente).


Percebe-se a fundamental importância da folha de bananeira, uma vez que o eco só passa a ser acaçá quando envolvido em uma folha verde que lhe atribui existência individualizada, pois passa a ser uma porção desprendida da massa, assim como e emi, que dá vida aos seres, é, na verdade, uma parte da atmosfera, ou do próprio Olorum, que todos ser leva dentro de si, o sopro da vida, o ar que respiramos.


Portanto, o acaçá é um corpo, o símbolo de um ser. A única oferenda que restituí a redistribui o axé.


É importante insistir que o que faz do acaçá um corpo único, eminente representação de um ser, é a folha, seu poderoso invólucro verde, que lhe confere individualidade e força vital diante do poderoso orun, os orixás e do grande Deus Oludumaré.


Somente a água é tão importante quanto o acaçá, pois não existem substitutos para nenhum dos dois, que são, a exemplo do obi, elementos indispensáveis em qualquer ritual. Ambos configuram-se como símbolo da vida, e é justamente para afastar a morte do caminho das pessoas, para que o sacrifício não seja o homem, que são oferecidos.


O acaçá remete ao maior significado que a vida pode ter: a própria vida. E por ser o grande elemento apaziguador, que arranca a morte, a doença, a pobreza e outras mazelas do seio da vida, tornou-se a comida e predileção de todos os orixás.


Fato é que quem não faz um bom acaçá não é um bom conhecedor do candomblé, pois as regras e diretrizes da religião nunca foram ditadas pela intuição. “Constituem grandes fundamentos cristalizados” ao longo de anos e anos de tradição. Aos incautos vale afirmar que candomblé não é intuição, mas fundamento sim, e fundamentos se aprende.


Fundamento é o segredo compartilhado, o detalhe que faz a diferença e a prova de que ninguém pode enganar o orixá.


O acaçá deve permanecer fechado, imaculado até o momento de ser entregue ao orixá. Só então é retirado da folha. É como se o sagrado tivesse de ficar oculto até a hora da oferenda, prova de que o segredo é quase sempre um elemento consagrado. E o segredo do acaçá é enrolar na folha de bananeira, é o que mantém um terreiro de candomblé de pé. Não existe acaçá que não seja enrolado na folha de bananeira..


Entretanto, a imprudência vigora em muitos terreiros e não raras vezes se ouve falar de novas iguarias apresentadas como acaçá. Os mais comuns são os acaçá de pia e de forma. No primeiro caso a massa de ecó, mais grossa, é colocada às colheradas sobre o mármore das pias, onde os bolinhos esfriam antes de serem utilizados nos ritos. Na segunda receita a massa é espalhada em uma forma e posteriormente cortada em quadradinhos. Este é um procedimento incorreto e condenável, e as pessoas que agem assim então fadadas ao insucesso e não podem ser consideradas pessoas de axé.


Não há candomblé sem acaçá, nem acaçá sem folha. A religião dos orixás não admite modificações na essência na essência, e esta comida é essencial, portanto, inviolável. Primeiro vem o acaçá antes dele só a vida. Logo, a folha de bananeira guarda uma vida. Deixar a massa do acaçá exposto é o mesmo que deixar a vida vulnerável. Eis o grande fundamento.




Texto: Gongofila - Tata de Nkice Ananguê de N'gola Djanga ria Matamba

TUDO COME E DE TUDO SE COME




A boca do homem é um espaço culturalmente sacralizado e indicado para receber a comida. Aí se inicia um processo palatável, que é precedido pelo visual, pelo olfativo, formando estéticas próprias para a compreensão dos alimentos. O alimentar-se implica um ato biológico e também social e cultural. A convencionalidade de comer nasce com a necessidade da nutrição e da sobrevivência, o que não retira significados simbólicos próprios de cada prato, tipos de ingredientes, locais de feitura e de oferecimento. O ritual de comer sinaliza um dos mais marcantes momentos das diferenças étnicas e profundamente antropológicas.
É amplo o conceito de comer, até mesmo com os olhos. Comer com os olhos apresenta o desejo, manifestado por certa voracidade, precedente do comer na atitude mais formal, com a boca. As sensações do olfato, a emoção, a visão da comida são componentes que integram e predispõem o indivíduo e seu grupo a interpretar e se inteirar da comida, para, em seguida, comê-la. Assim, o corpo inteiro está pronto para comer. Comer fisicamente e comer espiritualmente, comer emblematicamente. A comida é antes de tudo um dos mais importantes marcos de uma cultura, de uma civilização, de um momento histórico, de um momento social, de um momento econômico.
Todos os sentidos são chamados para comer. Todos os códigos visuais, térmicos, olfativos, funcionam diante da relação homem/comida. Come-se por inteiro, com o corpo, com a ética, com a moral, com todos os códigos próprios do grupo e do estado social em que o indivíduo faz parte. E, assim, a comida intera-se, establece-se nas relações mais profundas entre o homem e a cultura.
Nos terreiros, especialmente nos de Candomblé, Xangô e Mina, a comida ganha dimensão valorativa, sendo estendido o alimento do corpo e também do espírito. Comer, nos terreiros, é estabelecer vínculos e processos de comunicação entre homens, deuses, antepassados e natureza.
Não há gratuidade na elaboração de uma comida em âmbito socioreligioso. Cada ingrediente, as combinações de ingredientes, os processos do fazer e do servir assumem diferentes significados, todos integrantes do sofisticado sistema de poder e crença que fazem os princípios cognitivos do próprio terreiro - coerência com o tipo de Nação, liturgias, morfologias particulares dos estilos, do crer e do representar.
As emoções diante de cada comida são fundadas, geralmente, no conhecimento peculiar de cada prato, sua intenção, seu uso, seu valor particular e, também, no conjunto de outros pratos do cardápio devocional do terreiro.
O dendê é, sem dúvida, uma das mais imediatas e eficazes marcas da África na mesa afro-brasileira. Funciona como uma espécie de síntese de todos os sabores africanos aqui preservados e relembrados nos terreiros e também na ampla e diversa culinária nas casas, nas feiras, nos mercados, marcando ciclos festivos, entre outros eventos sociais.
Se uma África geral é assumida no dendê, então comer dendê é comer um pouco da África, trazendo-a, assim, para a intimidade de um prato, de um ritual, de um gosto condicionado às civilizações e às histórias dos povos africanos. Reforçam-se laços e nutrem-se relações simbólicas a partir das gastronômicas.
Comer além da boca, contudo, é uma ampliação sobre o conceito de comer nas religiões afro-brasileiras. Tudo está na permanente lembrança e ação de que tudo come. Come o chão, come o ixé, come a cumeeira, come a porta, come o portão, comem os assentamentos, árvores comem; enfim, comer é contatar e estabelecer vínculos fundamentais com a existência da vida, do axé, dos princípios ancestres e religiosos do terreiro.
É amplo o conceito de comer - e nele está implícito o de beber, da água lustral à matança de determinados animais - folhas, feijões, milhos, cebolas, camarões defumados, dendê, mel, cachaça, entre outros, fazem o cardápio votivos.
Comer é acionar o axé - energia e força fundamentais à vida religiosa do terreiro, à vida do homem.
A cabeça é alimentada no bori. Outras partes do corpo são também tocadas pelos materiais dessa obrigação - água, sal, mel, dendê, obi, orobô, sangue, folhas maceradas. Assim come e se nutre a cabeça, que é parte do corpo, espaço dos mais sagrados entre os demais que fazem o próprio terreiro.
Os insrumentos musicais também comem, e entre eles, os atabaques.
Comer é, antes de tudo, se relacionar. O que é oferecido é codificado na complexa organização do terreiro, assim circulando e se renutrindo. Há sentido e função em cada ingrediente e há significados nas quantidades, nos procedimentos, nos atos das oferendas, nos horários especiais e dias próprios, no som de cânticos, de toques de atabaques, agogô, cabaça e adjá ou do paô - bater palmas seguindo ritmos específicos.
Objetos pessoais e outros coletivos para manterem suas propriedades têm de comer. São os fios-de-contas, símbolos particulares dos indivíduos, que também relatam histórias iniciáticas e têm, obrigatoriedade, de comer junto com o corpo e os implementos sacralizados dos assentamentos nos roncós ou pejis.
Pode-se afirmar que comer, nessa concepção abrangente do conceito litúrgico do terreiro, equivale a cultuar, zelar, manter os princípios que fazem o próprio axé enquanto a grande unidade, a grande conquista do ser religioso do terreiro.
Os espaços da natureza também comem. Mar, rios, matas, estradas, pedreiras e outros, que têm sinalização por monumentos naturais ou vindos da intervenção do homem, da marca de um orixá, de um vodum, de um inquice, de um caboclo.
É preciso alimentar a natureza, os deuses, os antepassados, que representam pratonalmente os elementos ou são expressos nas atividades de transformação do mundo. São guerreiros, caçadores, ferreiros, reis, entre outros, que desejam a garantia da harmonia entre hoje/vida e história/antepassado na temporalidade vigente nos terreiros.
Há uma espécie de boca geral, de grande boca do mundo, simbolizada. Tudo e todos comem. Todos querem comer. Comer para existir e manter propriedades.
Os atos públicos do ajeum nos terreiros de Candomblé são dos mais significativos momentos da socialização pela comida. A comida, geralmente, é originária do cardápio dos deuses, fortalecendo relações entre homem/deus patrono.
Asssim, o ajeum é uma festa do comer, do beber, do falar sobre os rituais precedentes - música, dança, obrigações dos santos; é ainda um ritual de alimentação física. Pode-se dizer que comer é festejar, vivenciar o mundo.
Compartilhar da comida sagrada, do banquete cerimonial dos deuses é ato democrático. Todos são convidados. Todos participam do ajeum público.
Tão dinâmico na ação biológica e convencional de comer é o conceito de comer no âmbito das religiões afro-brasileiras. Comer equivale a viver, a manter, a ter, a preservar, a iniciar, a comunicar, a reforçar memórias individuais e coletivas. Assim, fundada nesse princípio, a vida é a grande celebração realizada entre os homens e seus deuses.
Isso se dará na compreensão diversa e complexa do ato de comer, quando tudo come, até o homem.

O QUE COME CADA ORIXÁ - NO BATUQUE/CABINDA

OFERENDAS DE YEMANJÁ




IEMANJA BOCI BOMI




Canjica branca cozida misturada com salsa e merengues. Opcional: flores, leque, pente, espelho, perfume, peras, melancias, manjar de coco, tainha ou corvina assada. Lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Iemanjá Bocí, Bomi  - Na beira da praia ,  água salgada ou doce.




IEMANJA NANÃ BOROCOM




Canjica branca, açúcar e merengues.Opcional: flores, leque, pente, espelho, perfume, peras, melancias, manjar de coco, tainha ou corvina assada. Lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia,  água salgada ou doce.




OFERENDAS DE OXALÁ
OXALÁ OBOCUM E OLOCUM




Canjica branca, 08 fatias de coco fruta descascadas, cocadas, coco ralado e feijão miúdo descascado. Opcional: flores, peras, uvas, doce de coco qualquer, manjar branco, maria moles. Lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia,  água doce ou salgada.

OXALÁ DACUM




Canjica branca, axoxó descascado, cocadas, coco ralado, 08 fatias de coco fruta descascados. Opcional: flores, peras, uvas, doce de coco qualquer, manjar branco, maria moles. Lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia,  água salgada ou doce, ou na correnteza das águas.

OXALÁ JOBOCUM




Canjica branca, cocadas, 08 fatias de coco fruta descascados, coco ralado. Opcional: flores, peras, uvas, doce de coco qualquer, manjar branco, maria moles.Lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia.






Acarajés Mãe Iansã:
Feijão miúdo de molho por 24 horas, batido com temperos, frito no azeite comum.

Acarajés Pai Oxalá:
Feijão miúdo de molho por 24 horas, sem casa, batido e frito no azeite comum.






Texto e fotos: Jairo de Xapanã
 http://www.iledexapana.brtdata.com.br/orixas/ebosorixa/ebosorixa.html


OFERENDAS DE OBÁ



Canjica amarela cozida, feijão miúdo cozido, misturados com salsa picada e azeite de dendê.  Opcional: lentilha cozida, abacaxi, rosa cor de rosa, leque, espelho, pente, brincos, pipoca, doces de massa, orelha de macaco, balas de goma. O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: No cruzeiro aberto ou no mato ou na figueira.

OFERENDAS DE OSSANHA



Um opeté de batata inglesa sem casca, um opeté de batata inglesa com casca e pipocas. Opcional: lingüiça de porco frita ou assada, ovo cozido, figo, abacate, melão, mamão, alface, moedas. O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha:  Num coqueiro de mato ou num coqueiro de praia ou na figueira


OFERENDAS DE XAPANÃ



Xapanã Jubeteí, Belujá, Sapatá


Feijão preto torrado, amendoim torrado, e pipocas. Opcional: opete de batata inglesa, decorado com milho, feijão e amendoim, pés-de-moleque, fatias de coco fritas no dende. O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha:


Xapanã Jubeteí:Na figueira de mato ou no mato.


Xapanã Belujá: Numa figueira de praia ou numa figueira de mato ou no mato.


Xapanã Sapatá: Numa figueira de mato.


OFERENDAS DE OXUM


Oxum Epandá Ibeje


Canjica amarela cozida, 08 doces de massa, 01 maçã verde partida em 04 pedaços, balas, bombons, pirulitos e quindins.Opcional: brinquedinhos de menina, balões, Omolocum( bola de feijão míúdo cozido em forma de bola furado ao meio e mel.Oxum. O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia ou numa pracinha de crianças(próximo aos balanços.


Oxum Epandá

Canjica amarela e quindins.Opcional: flores, pudim, ambrozia, cerejas, doce olho de sogra amarelo, leque, espelho, pente, perfume, Omolocum( bola de feijão míúdo cozido em forma de bola furado ao meio e mel.
O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia de água doce ou salgada, ou na beira de uma cachoeira


Oxum Ademum



Couve partida fina, refogada com farinha de milho, gema de ovo cozido esmagado e misturado com a couvee moedas.Opcional: flores, pudim, ambrozia, cerejas, doce olho de sogra amarelo, leque, espelho, pente, perfume, Omolocum( bola de feijão míúdo cozido em forma de bola furado ao meio e mel. O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia de água doce ou salgada, ou num coqueiro junto à praia.


Oxum Olobá



Feijão miúdo cozido e enfarofado com farinha de mandioca, 04 ovos cozidos partidos. Opcional: flores, pudim, ambrozia, cerejas, doce olho de sogra amarelo, leque, espelho, pente, perfume, Omolocum( bola de feijão míúdo cozido em forma de bola furado ao meio e mel. O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia de água doce ou salgada, ou figueira junto à praia, ou pedra junto à praia.


Oxum Adocô



Canjica amarela e canjica branca e quindins. Opcional: flores, pudim, ambrozia, cerejas, doce olho de sogra amarelo, leque, espelho, pente, perfume, Omolocum( bola de feijão míúdo cozido em forma de bola furado ao meio e mel. O lugar onde se leva as oferendas e onde se despacha: Na beira da praia de água doce ou salgada.

OFERENDAS DE IANSÃ




IANSÃ OIÁ TIMBOÁ



Pipocas, 07 rodelas de batata frita no azeite comum, 01 maçã, 01 moranga cozida recheada com carne moída.Opcional: rosa vermelha, leque, espelho, perfume, jóias, manga, morango, bombom vermelho, acarajés, doce de batata doce, doce de abóbora, abóbora, par de alianças, fitas, laços, cerejas. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: Em uma Figueira.


IANSÃ OIÁ DIRÃ



Pipocas, 07 rodelas de batata frita no azeite comum, 03 batata doce assada, 01 maçã, 01 panela de batata inglesa cozida, 07 palheiros. Opcional: rosa vermelha, leque, espelho, perfume, jóias, manga, morango, bombom vermelho, acarajés, doce de batata doce, doce de abóbora, abóbora, par de alianças, fitas, laços, cerejas. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: No cruzeiro..


IANSÃ OIÁ



Pipocas, 07 rodelas de batata frita no azeite comum, 01 batata doce assada, 01 maçã. Opcional: rosa vermelha, leque, espelho, perfume, jóias, manga, morango, bombom vermelho, acarajés, doce de batata doce, doce de abóbora, abóbora, par de alianças, fitas, laços, cerejas. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha:: No mato próximo a uma árvore, em uma árvore próximo da beira da praia, na beira da praia.






OFERENDAS DE XANGÔ


XANGÔ AGANDJÚ IBEJE



Amalá - Pirão (farinha de mandioca e farinha de milho), ensopado de carne de peito, temperado com alho, cebola e mostarda cozida só no bafo da panela da carne, 06 bananas da terra ou Catarina, 01 maçã vermelha partida em 04 partes, 06 doces de massa, balas, pirulitos, bombons, mil folhas. Opcional: morango, caqui, bombons, mil folhas e doces de massa, brinquedos, refringentes, balões, mariolas. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: Numa pedreira de praia ou numa pracinha de crianças (próximo dos balanços).


XANGÔ AGANDJÚ

Amalá - Pirão de farinha de mandioca, ensopado de carne de peito bem picada e cozida, temperada com alho, cebola e mostarda cozida, 06 bananas da terra ou Catarina, 01 maçã vermelha partida em 04 partes. Opcional: morango, caqui, bombons, mil folhas e doces de massa, mariolas. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: Numa pedreira de beira de praia






XANGÔ AGODÔ

Amalá - Pirão de farinha de mandioca, ensopado de carne de peito bem picada grande e cozida, temperada com alho, cebola e mostarda cozida, 12 bananas da terra ou Catarina, 01 maçã vermelha partida em 04 partes. Opcional: morango, caqui. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: Numa pedreira de mato ou numa pedreira de cachoeira.


OFERENDAS DE ODÉ/OTIM

Costela de porco frita no azeite comum, miamiã doce (farinha de mandioca e mel, feijão miúdo torrado e pipocas. Opcional: doces, balas, bombons, pirulitos, refrigerantes, brinquedos, mamadeiras.
O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: Odé: Num coqueiro de mato ou num coqueiro de praia. Otim: Num coqueiro de mato ou num coqueiro de praia.
OFERENDAS DE BARÁ




BARA LODE
Milho torrado, pipoca, 07 batatas inglesas assadas, 07 opetés de batatas inglesas cozidas e amassadas sem casca com dendê. Opcional: morango, bombom com papel vermelho, chave de batata inglesa. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: No cruzeiro aberto, no cruzeiro de mato.




BARA LANÃ OU BARA ADAGUE
Milho torrado, pipoca, 07 batatas inglesas assadas. Opcional: bombons, gomos de bergamota, chave de batata inglesa. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha:  Bará Lanã: No cruzeiro aberto, no cruzeiro de mato. Bará Adague: No cruzeiro aberto.

BARA AJELU

Milho cozido (axoxó), pipoca, 07 batatas inglesas mal cozidas e descascadas com uma colher, 07 tiras de coco fruta sem casca, 07 balas de mel. Opcional: bombons, doces coloridos, doces de massa.  O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: No cruzeiro aberto de praia, na beira da praia em local seco.

OFERENDAS DE OGUM




OGUM AVAGÃ
Churrasco de costela de gado frito no azeite de dendê, miamiã gordo. Opcional: doce de laranja azeda, cana de açúcar, espigas de milho.  O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha: No mato, no cruzeiro aberto, no cruzeiro de mato.

OGUN ONIRA E OLOBEDÉ
Churrasco de costela de gado frito no azeite de dendê, miamiã gordo, pipocas. Opcional: doce de laranja azeda, cana de açúcar, espigas de milho, rocambole, fatias de coco. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha:  Ogum Onira: No mato próximo a uma árvore. Ogum Olobedé: No mato próximo a uma árvore, ou, próximo a uma árvore com pedras ou cachoeira.




OGUM ADIOLA
Costela assada, passada no nhame-nhame, canjica branca, canjica amarela, quindim, cocada, merengue, laranja. Opcional: doce de laranja, cana de açúcar, espigas de milho, rocambole, fatias de coco. O lugar onde se leva as oferenda e onde se despacha:  No mato próximo a praia, árvore próxima à beira da praia, no mato próximo a uma cachoeira.

OXUM- A DONA DA FECUNDIDADE E DAS ÁGUAS

Omolocun
Generosa e digna, Oxum é a rainha de todos os rios. Vaidosa, é a mais importante entre as mulheres da cidade, é a dona da fecundidade das mulheres, a dona do grande poder feminino. As mulheres que querem engravidar se recordam de Oxum, presenteando-a com uma bacia de louça contendo Omolocum (feijão fradinho, dendê, camarão seco, cebola e ovos inteiros cozidos). Quando seu pedido é atendido levam até uma nascente de água doce bijuterias como forma de agradecimento. Oxum adora ser lembrada. Come também o ipeté, comida a base de inhame temperada com camarão e dendê. Ado - é uma comida ritual feita de milho vermelho torrado e moído em moinho e temperado com azeite de dendê e mel.

LOGUNEDÉ – DONO DA RIQUEZA E BELEZA

É o orixá da riqueza e da fartura, filho de Oxum e de Oxóssi, Deus da terra e da água. É sem dúvida, um dos mais belos orixás do Candomblé já que a beleza é uma das principais características de seus pais. O caçador habilidoso e príncipe soberbo, Logunedé reúne os domínios de Oxóssi e Oxum e quase tudo que se sabe a seu respeito gira em torno de sua paternidade. Como sua principal característica é a beleza, as pessoas recorrem a ele quando querem ser notadas, pois a alquimia de oferecer-lhe milho cozido, com feijão fradinho acompanhado de um peixe assado em folha de bananeira transfere a este indivíduo o encanto deste orixá


IANSÃ - OIÁ - A MULHER GUERREIRA

Akaraje
O maior e mais importante rio da Nigéria chama-se Niger, é importante e atravessa todo país. Rasgado espalha-se pelas principais cidades através de seus afluentes e por esse motivo tornou-se conhecido pelo nome de Odò Oya, já que na língua iorubá ya, significa rasgar, espalhar. Esse rio riu e é a morada da mulher mais poderosa da África negra, a mãe dos nove céus, dos nove filhos, do rio de nove braços, Iansã. Embora seja saudada como a deusa do rio Niger, esta relacionada ao elemento fogo. Na realidade, indica a união de elementos contraditórios, pois nasce da água e do fogo, da tempestade, do raio que corta o céu no meio da chuva, é a filha do fogo.
A tempestade é o poder manifesto de Iansã, rainha dos raios, das ventanias, do tempo que fecha sem chover. Iansã é lembrada como a senhora dos nove partos. O número nove é parte integrante de seu nome e aparece em várias passagens de sua história. Mas com nove acarajés (sua comida) pode-se conseguir vencer grandes batalhas e atingir as maiores dadivas junto a Iansã. Esta deusa também se alimenta de farofa de mandioca refogada no dendê, camarão defumado e cebola ralada tudo levado ao fogo com uma pitada de sal.


OBÁ - O ORIXÁ DO CIÚME

Abará
Uma das mulheres de Xangô, recebe abará - feijão fradinho descascado e moído com cebola, camarão e dendê, envolvido em folha de bananeira e cozido no vapor.


EWÁ - DEUSA DA BELEZA

Batata doce
Gosta de banana-da-terra e batata-doce. Em algumas casas recebe feijão fradinho com coco e dendê.


IEMANJÁ- A RAINHA DO MAR

Eboya
A grande rainha de todas as água do mundo sejam elas doces ou salgadas, dos rios ou dos mares, a deusa sincretizada no Brasil como protetora dos navegantes e pescadores. Diferente do que todos pensam, Yemanja é cultuada na África em rio de água doce, que leva seu nome, somente no Brasil ela foi unificada as águas salgadas, as grandes sacerdotisas ressaltam que o correto lugar para o culto desse orixá é o encontro de águas, salgadas e doces. Na Bahia os devotos de Yemanja oferecem a ela Eboya, uma refeição a base de canjica molho de camarão defumado, cebola ralada e azeite doce. Fazendo seus pedidos de proteção e boa pesca


XANGÔ - ORIXÁ DA JUSTIÇA E DO PODER

Amalá
Nem seria preciso falar do poder de Xangô, porque o poder é sua síntese. Xangô nasce do poder e morre em nome do poder. Rei absoluto, forte e imbatível. O prazer desse orixá é o poder, ele manda nos poderosos, manda em seu reino e em reinos vizinhos. Xangô é rei entre todos os reis, não existe uma hierarquia entre os orixás, nenhum possui mais energia que o outro, apenas Oxalá, que representa o patriarca da religião e é o orixá mais velho , goza certa. O amalá é a comida mais elaborada do Candomblé. Representa dignidade e o poder de Xangô é a própria organização do reino de Oió (cidade da África). Este preparo compõe-se de quiabo, dendê, pó de camarão seco, cebola e gengibre, todos os ingredientes levados ao fogo bem apurados, posteriormente servido em gamela (forma de madeira), os pedidos de justiça ao evocar Xangô são inúmeros. Gosta de mesa farta.


OXALÁ – O CRIADOR
                       












              Na África, todos os orixás relacionados a criação são designados pelos nomes de Orixalá, ou seja, (o grande orixá), que nas terras de Igbó e Ifé é cultuado como Obatalá, o rei do pano branco. Eram cerca de 154 os orixás, mas no Brasil, a quantidade se reduz significativamente, sendo que dois orixás Olúfón, rei de Ifon (Oxalufã), o bom comedor de inhame e rei de Egigbó (Oxaguiã), tornam-se suas expressões mais conhecidas. Oxalá é o Deus que cria; aquele que veste branco, o sábio, que prega a paz. Na turbulenta movimentação das grandes cidades os òmo orixá (filho do deus), encontram a paz, a serenidade e o equilíbrio para o recomeço de uma nova jornada alimentando-o com uma grande bacia de canjica branca cozida – Ebô. Come também inhame, arroz branco e acaçá. Não come dendê e sal.









OXÓSSI / ODÉ - O PROVEDOR
 
Axoxo
Oxóssi é o orixá da caça, senhor das florestas e de todos os seres que a habitam, orixá da fartura e da riqueza, protetor dos agricultores, símbolo de prosperidade, não há adepto desta religião que não o alimente, ofertando-lhe o axoxo (milho cozido com fatias de coco fresco) aos pés de uma árvore, em busca de sucesso econômico. Aprecia frutas de vários tipos. Tem mel como tabú.
 

OBALUAYE – ORIXA DAS DOENÇAS E DA SAUDE 
Deburu
Omolu é a terra. Essa afirmação resume perfeitamente o perfil desse orixá, o mais temido entre os deuses do Candomblé, o orixá da varíola e de todas as doenças contagiosas. É preciso esclarecer que Omolu está ligado ao interior da terra e isso denota uma intima relação com o fogo, já que esse elemento como comprova os vulcões em erupção, domina as camadas mais profundas do planeta. O indivíduo enfermo recorre sempre a este orixá, ofertando-lhe um cesto de pipocas (que representam feridas espalhadas pelo seu corpo) com lascas de coco fresco em contato direto com a terra. Também gosta de milho torrado, feijão preto, Mossoró(massa de feijão fradinho temperado com camarão seco e frita) atafum (bola de feijão preto temperado).

OSSAIM - O DONO DAS FÔLHAS

Milho torrado com fumo
Kó sí ewé, kò sì orixá, ou seja, (sem folha não há orixá). Ossain conhece os segredos e as palavras que despertam o poder das folhas, é conhecido como um grande feiticeiro. Quem busca cura em tratamentos medicinais não deve esquecer-se desse orixá, deixando no centro de uma mata fechada uma grande cumbuca de barro com milho vermelho, lascas de fumo, camarões secos, regados com o perfume e aroma do mel e do dendê. Recebe,ainda, o efó ( refogado de vários tipos de folha, como a taioba, a mostarda e a folha de quiabo).

OXUMARÉ- O ORIXÁ DO MOVIMENTO

 Banana da terra
Quando se visualiza o arco-íris, é possível sentir a presença de Oxummaré o orixá de todos os movimentos, de todos os ciclos. Se um dia Oxumaré perder suas forças o mundo acabará, porque o universo é dinâmico e a terra também se encontra em constante movimento. Não é possível imaginar o planeta terra sem movimentos, translação e rotação; Oxumaré é o eixo do mundo, os adeptos que almejam o equilíbrio se curvam a esse orixá ofertando-lhe uma rica farofa de dendê com ovos cozidos. Gosta de massa de batata-doce e da banana-da-terra frita no dendê.

NANà - A ANCIà


 Efó

Nanã é a deusa dos mistérios, sua origem é simultânea à criação do mundo, pois quando Odudua (Deus das águas salgadas) separou a água parada que já existia, libertou do “saco da criação" a terra, no ponto de contato desses dois elementos formou-se a lama nos pântanos, local onde se encontram os maiores segredos de Nanã. Senhora de muitas conchas Nanã sintetiza a morte. As grandes mulheres do Candomblé se reverenciam a esse orixá por toda trajetória de suas vidas, fazendo com que    o tempo de sua existência se estenda. Aos sábados no cair da noite sempre iam ao mangue oferecer uma comida chamada Andaré. Trata-se de um vatapá de feijão fradinho, sem adição de dendê. O ritual não aparece no momento de oferecer a comida, mas no momento de prepará-la, pois aí se sente sua presença. Aprecia também o acaçá dissolvido em água de mel, o omitorô(água do cozimento da canjica com mel), Efô
é uma comida ritual e da culinária baiana , pode ser feita com folha de mostarda ou da folha chamada língua de vaca .